Leticia Casado/UOL – Uma feira do agronegócio em Sinop, a 500 km de Cuiabá, em Mato Grosso, simboliza a dificuldade do governo Lula (PT) em dialogar com parte desse setor: o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vai ser a estrela do evento na tarde de hoje, enquanto o petista, que vai concorrer com ele em outubro, não foi sequer convidado.
A resistência de setores do agronegócio a Lula no Centro-Oeste do país se deve principalmente à relação entre PT e movimentos sociais (em especial o MST); à agenda ambiental do partido; à cultura de “família e propriedade”; e à menor dependência de programas sociais como o Bolsa Família, segundo aliados do presidente e cientistas políticos ouvidos pela coluna.
Em Sinop, a feira Norte Show reúne o setor produtivo em um evento com cerca de 400 expositores e 2.000 marcas. O evento promove políticos e influenciadores da direita com palestras e debates. Em outras edições, já recebeu Jair Bolsonaro (PL) e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).
O antipetismo no Centro-Oeste
Em 2022, Bolsonaro obteve 65,08% dos votos válidos em Mato Grosso, e Lula, 34,92%; em Sinop, foram 76,95% e 23,05% respectivamente.
Na última eleição presidencial, Lula perdeu para Bolsonaro nas quatro unidades federativas que compõem o Centro-Oeste e que, juntas, somam cerca de 11,5 milhões de eleitores, 10% do total do Brasil: Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.
“O que faz o antipetismo ser sustentado aí é um voto baseado no agro há muito tempo consolidado, justamente por conta dessa ligação do PT com movimentos sociais, com MST e com agenda ambiental”, diz Bruno Bolognesi, coordenador do Laboratório de Partidos e Sistemas Partidários na UFPR (Universidade Federal do Paraná).
Bolognesi acrescenta que a geração de empregos do agronegócio reduz a dependência da população por programas de assistência social, como o Bolsa Família — a maior marca de Lula.
No ano passado, o UOL mostrou que 12 estados do Brasil têm mais beneficiários do que trabalhadores formais. Todos ficam nas regiões Norte e Nordeste do país.
Família e propriedade
Para um auxiliar de Lula, o processo de ocupação do Centro-Oeste também ajuda a explicar a cultura e o voto na região: fazendeiros que ampliaram seus latifúndios por meio da apropriação de terras e pelo uso de armas na defesa da família e da propriedade. Segundo ele, historicamente são esses grupos que criticam a ampliação de combate ao trabalho análogo à escravidão.
Outro aliado de Lula diz que esses grupos tiveram em Jair Bolsonaro uma base de apoio moral e conceitual ao pregar a violência contra o MST e a combater a agenda ambiental, cujo rosto do terceiro mandato do petista foi o de Marina Silva. A ex-ministra do Meio Ambiente é vista como um símbolo das pautas que parte do agronegócio ataca.
O cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest e autor do livro “Brasil no Espelho”, diz que o eleitorado que se identifica com o agronegócio corresponde a 13% dos votantes, tem uma cultura homogênea e, “mais do que um voto contra o Lula, deposita um voto contra a cultura de esquerda, que eles abominam”.
“São tradicionais no que diz respeito à família, muito ligados à terra, à música sertaneja, à religião. São pessoas que têm orgulho de estar ligadas a uma cultura que ganhou força econômica e busca importância política. Consomem um tipo de carro (as caminhonetes), um tipo de roupa (o jeans, a botina e o chapéu) e um tipo de comida (tropeiro, carne e cerveja) muito particulares. E tudo isso junto cria neles um habitus próprio, muito distante do que enxergam em Lula e no projeto do PT.”