SAÚDE
Questão central do câncer é prevenir casos, diz ex-ministro Temporão
Published
8 meses agoon
By
Da Redação
O ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão defende que o enfrentamento ao câncer no Brasil e no mundo deve ir muito além do diagnóstico e do tratamento. Na verdade, para o pesquisador titular da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que já foi diretor-geral no Instituto Nacional do Câncer e membro do Comitê Consultivo para o Controle do Câncer da Organização Mundial da Saúde, o “eixo central” de combate à doença deveria ser a prevenção e a promoção de saúde. 

Em entrevista à Agência Brasil, ele destaca que o combate à doença é um desafio também de ordem social e econômica e defende ainda uma reestruturação do Sistema Único de Saúde (SUS), para que os municípios passem a se organizar em regiões e, assim, possam atender melhor a pacientes com questões mais complexas, reduzindo a desigualdade regional do país.
Agência Brasil: Recentemente, o senhor publicou um artigo sobre os desafios do câncer no Século 21. Pode explicar quais são?
José Gomes Temporão: Acho que o primeiro ponto a ser destacado é a gravidade do problema do câncer, como um conjunto de doenças. Não é apenas uma doença, são dezenas de tipos diferentes. Em mais de 600 municípios brasileiros, já é a primeira causa de mortalidade, e a projeção da Organização Mundial da Saúde para as próximas décadas é que o câncer vai ultrapassar as doenças cardiovasculares e cerebrovasculares como principal causa de morte no mundo. O próprio IARC [Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, na sigla em inglês], que é o órgão da OMS para câncer, projeta 35 milhões de novos casos em 2050, em termos globais. No Brasil, o último número que nós temos do Inca, para o triênio que termina em 2025, é de cerca de 700 mil novos casos por ano.
Quando a gente olha para o Brasil e para os países em desenvolvimento, chama muita atenção que, embora a incidência de casos não seja expressiva em termos globais, 70% das mortes acontecem hoje nos países de baixa e média renda. Então, tem uma questão aí de desigualdade, de iniquidade muito evidente, porque esses países de baixa e média renda não conseguem enfrentar o problema, nem do ponto de vista da prevenção e da promoção [da saúde], nem do ponto de vista do acesso ao tratamento, mesmo com as tecnologias mais tradicionais, como é o caso das quimioterapias, da radioterapia e da cirurgia.
A questão central é que o câncer é um problema multifacetado que transcende muito a medicina. Ele demanda respostas sociais, econômicas e éticas também. Você tem um crescimento acelerado da incidência, da prevalência e da mortalidade que pressiona o sistema de saúde, e o que está colocado para nós é que precisamos de políticas que garantam prevenção, detecção precoce, tratamento, reabilitação e cuidados paliativos. Não é pouco desafio.
Agência Brasil: E como o senhor acabou de lembrar, não se trata apenas de diagnosticar e tratar a doença.
José Gomes Temporão: Eu quero muito enfatizar uma coisa: o senso comum, o tempo todo, nos puxa para o lado do tratamento, mas o tratamento significa que a doença já está instalada. E, na verdade, o eixo central deveria ser a prevenção e a promoção de saúde. Mas, no caso de câncer, para prevenir, você tem que tratar dos fatores de risco, e você tem que pensar em como reduzir a prevalência do tabagismo, o consumo de álcool, como controlar a obesidade, o padrão alimentar, o sedentarismo, a poluição ambiental. São problemas muito complexos, porque a maior parte deles não depende apenas do campo da saúde. Eles exigem políticas transversais e intersetoriais.
Dizem que isso é “muito complicado”, é “muito caro”.Os lobbies não permitem, por exemplo, que a publicidade de ultraprocessados para crianças e adolescentes seja proibida. O lobby não permite que os impostos das bebidas açucaradas sejam mais altos, para que elas fiquem caras. Mas esses fatores ambientais causam 90% dos casos de câncer no mundo. Os fatores genéticos são residuais. Aí, todo mundo fica pensando em como se cura, mas a questão central do câncer não é a cura, é evitar a doença. E, pra isso, não tem jeito, você tem que lidar com esses fatores que eu listei.
Agência Brasil: E quando a doença se instala, apesar da prevenção, o diagnóstico precoce ainda é a chave para um bom tratamento?
José Gomes Temporão: O diagnóstico precoce é central, mas, para isso, você tem que ter uma rede organizada. A atenção básica tem que ter capacidade de perceber sintomas iniciais da doença e também fazer aqueles rastreamentos, como o exame periódico para detecção do câncer de colo de útero, a mamografia, o toque retal, o exame de PSA, a colonoscopia.
O Brasil dispõe de uma rede de atenção primária que, hoje, cobre 150 milhões de brasileiros, é a maior rede de atenção primária do mundo, mas com um desempenho muito heterogêneo. Quando você olha em termos de território brasileiro, as diferenças são gritantes, de cobertura e de qualidade, e é cada vez mais difícil você instalar serviços especializados nos municípios das regiões Norte e Nordeste, em comparação com a grande concentração tecnológica para diagnóstico e tratamento das regiões Sul e Sudeste, principalmente.
Já para o tratamento, muitas tecnologias revolucionárias estão sendo trazidas pela biotecnologia, como a imunoterapia, que são moléculas que atacam diretamente determinados alvos dentro das células. Mas esses medicamentos podem chegar a milhões de dólares por paciente, completamente fora de possibilidade de incorporação pelo sistema de saúde dos países em desenvolvimento. E, aí, entra toda a discussão relacionada à dependência tecnológica, políticas de desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação e etc.
Ex-ministro da saúde José Gomes Temporão [é pesquisador titular da Fiocruz Foto: Sergio Velho Junior/Fiocruz Brasília
Agência Brasil: Ou seja, estamos vivendo um momento excelente em termos do desenvolvimento de tecnologia, mas a maioria delas ainda não pode ser utilizada em larga escala.
Temporão: No Brasil, nós temos um instrumento muito importante, inclusive, que é a Conitec, a Comissão Nacional de Incorporação e Tecnologias no SUS. A gente se inspirou muito no modelo inglês, porque, lá na Inglaterra, praticamente 90% da população usa apenas o serviço público de saúde, e nada é incorporado no sistema público sem que esse órgão regulador aprove. A gente fez a Conitec um pouco no espelho disso, então, toda e qualquer tecnologia para ser incorporada no SUS tem que ser previamente aprovada pela Conitec, e tem que comprovar que o tratamento é custo-efetivo, que há orçamento disponível para compra.
Agência Brasil: O que o Brasil precisa fazer pra conseguir cumprir a lei de 60 dias, que determina que o tratamento contra o câncer deve ser iniciado em até 60 dias após o diagnóstico?
Temporão: Primeiro, como eu consigo fugir da pulverização que nós temos no sistema de saúde hoje? Nós temos mais de 5 mil municípios no Brasil, e cada um é responsável pela saúde, com o apoio dos estados e do governo federal. E nós temos que romper com esse modelo e caminhar para o modelo de regiões de saúde, que congregam municípios, centenas ou dezenas, dependendo do contexto.
Essas desigualdades territoriais e essas assimetrias entre os estados só serão resolvidas com uma regionalização efetiva, com um certo grau de autonomia para que essa região não fique dependente do governo federal, dos estados ou dos municípios. Para que ela possa contratar equipes, fazer compras. Na discussão que está sendo feita hoje, nós sairíamos de mais de 5 mil sistemas municipais para cerca de 400 regiões de saúde em todo o país.
O outro ponto é: como eu garanto especialistas que lidam com a questão do câncer dentro de uma equipe multiprofissional de maneira equânime no território brasileiro? Eu vou dar um chute aqui que 80% dos cirurgiões oncologistas e oncologistas clínicos do Brasil estão no Sul e Sudeste. Com isso, nas outras regiões, com menos especialistas, o tempo de espera é muito maior.
É importante compreender que a lei dos 60 dias foi aprovada com a melhor das intenções, foi resultado de lutas justas de uma série de movimentos sociais que defendem os direitos dos pacientes, mas é uma lei que serve mais como uma referência política do que como uma garantia real, porque essa garantia real só vai se dar quando a gente resolver esses gargalos da regionalização e da disponibilização de especialistas, de equipes multiprofissionais em todo o território brasileiro.
Agência Brasil: Mesmo no cenário atual, o que poderia melhorar um pouco o cenário?
Temporão: O rastreamento organizado é fundamental. Hoje, tem quatro tipos de câncer com rastreamento de rotina: colo de útero, retal, mama e próstata. E a unidade básica é onde as pessoas fazem esses exames. Ninguém começa sendo atendido num hospital especializado em câncer. Então, essas unidades tem que seguir os protocolos, e o médico de família tem que trabalhar com um cadastro atualizado das famílias que ele atende, considerando a faixa etária e o risco. Mas essa base também precisa ter um apoio de especialistas para recorrer em caso de dúvida. Agora, com as novas tecnologias, isso é a coisa mais simples que existe. Um médico de família, quando está suspeitando de alguma coisa, mas não dispõe dos instrumentos para decidir, pode fazer uma consulta por telemedicina com um especialista, que esteja em qualquer outro lugar.
Agência Brasil: Isso já mostra a contribuição que novas tecnologias podem oferecer.
Temporão: As novas tecnologias de comunicação a distância, como telemedicina e telesaúde estão ampliando muito o acesso. Mas a consulta física é fundamental pra se fechar o diagnóstico, evidentemente. Além disso, com a inteligência artificial, há a possibilidade de você melhorar muito a acurácia de um laudo de diagnóstico. O mundo inteiro já está usando isso, porque todo e qualquer diagnóstico que depende do olho humano tem possibilidade de erro, e já está mais do que validado que a fidedignidade de um laudo aumenta cada vez mais com a ajuda da inteligência artificial. Claro que você vai ter que ter o tempo todo uma revisão humana.
O Eric Topol, que é um grande estudioso das tecnologias médicas, aposta que essas tecnologias vão libertar o médico de um conjunto de tarefas burocráticas, para que ele possa se dedicar mais de perto ao cuidado. Espero que ele esteja certo. A nossa expectativa é o resgate da famosa relação médico-paciente, que é fundamental em qualquer tratamento.
Agência Brasil: Mas a área do câncer também enfrenta o lado ruim dessas novas tecnologias, como a desinformação.
Temporão: Ah sim. Dez anos atrás, quando começou essa história de “doutor Google”, as pessoas iam ao médico e já levavam dez páginas impressas de pesquisa. Agora é mais grave, porque, com a inteligência artificial, o paciente vai no ChatGPT e já vem pro consultório com tudo pronto. A gente também tem outra novidade, que são as redes sociais. Então, a gente precisa construir uma estratégia de comunicação, não só para fazer frente à desinformação, mas também para oferecer mensagens consistentes e culturamente adequadas. Uma coisa é você conversar com a população que mora na periferia dos grandes centros urbanos, outra coisa é tentar um diálogo com alguém que mora no interior do Nordeste ou na região Amazônica.
Outro ponto importante é que é preciso ter muita transparência nos dados. Vamos olhar o exemplo do tabaco, que o Brasil é o maior sucesso mundial. No Brasil, há algumas décadas, o percentual de adultos que fumavam regularmente era mais de 30% da população e hoje ele está em torno de 10%. Mas a gente proibiu a propaganda em todos os meios. Teve um grande movimento de educação que começou nas escolas, os profissionais de saúde se envolveram. Hoje você caminha pelas grandes cidades brasileiras e você vê que a grande maioria da população não fuma. E como você alcança esse resultado? Tendo dados confiáveis e colocando para a sociedade com muita clareza e transparência.
Adaptando pra hoje, como eu explico pras pessoas que o que elas comem no dia-a-dia, daqui a algumas décadas, pode levar a desenvolver um determinado tipo de neoplasia? Que quando ele circula por uma grande capital, como o Rio e São Paulo, a poluição do ambiente, causada na maioria das vezes pelas emissões dos veículos automotores, pode causar câncer de pulmão e outras doenças? É a construção de uma comunicação de risco adequada. Também é fundamental você ter uma regulamentação da publicidade, como a gente proibiu a propaganda de tabaco. Agora, precisamos regular a do álcool e a dos ultraprocessados.
Procurador do Estado deve ir na ALMT nesta segunda-feira para depor sobre acordos de ICMS
Ronaldo Fenômeno posa com Terry Crews antes de Brasil x Noruega: ‘Loves you’
Levantamento aponta redução na média semanal de casos de dengue e chikungunya
Mercado financeiro reduz projeção da inflação para 5,30%
Mulheres de Várzea Grande transformam agricultura familiar em geração de renda e inclusão social
Motociclista morre após sair da pista e cair em barranco na MT-251, entre Cuiabá e Chapada
Cuiabá realiza mutirão com cirurgias de vesícula por vídeo para reduzir fila de espera
Empresário é internado em SP após se engasgar durante churrasco em Cuiabá
Playground da Orla do Porto funciona junto ao Museu do Rio e Aquário Municipal
Republicanos inaugura nova sede em Cuiabá em meio à disputa pelo Governo
SAÚDE
Vacina contra VSR em idosos reduz internações em 75%
O estudo que analisou dados de mais de 2,5 milhões de pessoas concluiu que a vacinação contra o vírus sincicial...
IBGE e Ministério da Saúde lançam Pesquisa Nacional de Saúde 2026
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Ministério da Saúde lançaram nesta quinta-feira (2) a terceira edição...
Cientistas da Fiocruz podem produzir vacina completa contra a malária
Cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) deram passo importante para obter uma vacina mais completa contra a malária. Os pesquisadores...
POLÍCIA
Tornozelado é executado a tiros ao lado de Saveiro no interior de MT
Conteúdo/ODOC – Um homem identificado como Bruno Abreu Silva Rego, de 33 anos, foi executado a tiros na noite deste...
Sem alvará e com som acima do permitido: operação aperta o cerco contra bares em VG
Uma força-tarefa realizada na noite de sexta-feira (3) intensificou a fiscalização contra estabelecimentos comerciais em Várzea Grande e encontrou irregularidades...
Mulher é perseguida e morta a facadas dentro de quarto após discussão em bar de MT
Conteúdo/ODOC – Uma mulher identificada como Daiany Rodrigues de Souza, de 33 anos, foi assassinada a facadas na madrugada deste...
POLÍTICA
Procurador do Estado deve ir na ALMT nesta segunda-feira para depor sobre acordos de ICMS
Nesta semana semana, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) terá programação voltada a reuniões de comissões permanentes, audiências públicas,...
Estado reforça investimentos e prefeita afirma que município voltou ao mapa das prioridades
“O apoio do Governo de Mato Grosso tem sido decisivo para recolocar o município na rota dos investimentos públicos.” A...
Regras de restrições do período eleitoral já estão valendo em Mato Grosso; confira
Agência Brasil – As principais proibições previstas na legislação eleitoral para evitar o uso da máquina pública durante a campanha...
CIDADES
Levantamento aponta redução na média semanal de casos de dengue e chikungunya
A Prefeitura de Cuiabá, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, intensificou as ações de enfrentamento às arboviroses e vistoriou...
Mulheres de Várzea Grande transformam agricultura familiar em geração de renda e inclusão social
Da produção artesanal de conservas ao reaproveitamento de materiais para confecção de bolsas e peças de artesanato, mulheres de Várzea...
Operação recolhe mais de 60 peças de publicidade irregular em avenida de Cuiabá
A Prefeitura de Cuiabá, por meio da Secretaria Municipal de Ordem Pública (Sorp), realizou mais uma etapa da Operação Cidade...
ESPORTES
Esportes13 minutos ago Brasil é castigado por Haaland e cai para a Noruega nas oitavas da Copa O Brasil deu adeus ao sonho do hexacampeonato neste domingo. A Seleção perdeu chances, foi castigada por Haaland e perdeu para a Noruega por 2 a…
Esportes13 minutos ago Brasil é castigado por Haaland e cai para a Noruega nas oitavas da Copa O Brasil deu...
Técnico da Chapecoense valoriza vitória sobre o Grêmio em Sinop e reforça meta de permanência na Série A
A vitória da Chapecoense por 2 a 1 sobre o Grêmio, nontem, no estádio Gigante do Norte, em Sinop, foi...
Kannemann agradece torcida após derrota para a Chapecoense em Sinop; Noriega critica gramado
O Grêmio foi derrotado por 2 a 1 pela Chapecoense, ontem, no estádio Gigante do Norte, em Sinop, em amistoso...
MATO GROSSO
Assembleia tem semana com convocação, audiência pública, reuniões de comissões e sessões plenárias
Foto: GILBERTO LEITE/SECRETARIA DE COMUNICAÇÃO SOCIAL Na próxima semana, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) terá programação voltada a...
ALMT e Senado celebram 50 anos da lei de Vicente Vuolo
Foto: ANGELO VARELA / ALMT A Assembleia Legislativa de Mato Grosso e o Senado Federal realizaram, na manhã desta sexta-feira...
Mesa Diretora estabelece regras para atividades da ALMT durante o período eleitoral
Foto: GILBERTO LEITE DE OLIVEIRA A Mesa Diretora da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) publicou no Diário Oficial desta...
Trending
-
ECONOMIA11 meses agoIBGE vai ajustar dados passados de desemprego; entenda o porquê
-
OPINIÃO2 anos agoEnvelhecimento e pobreza: os desafios de Mato Grosso para as próximas décadas
-
ENTRETENIMENTO2 anos agoRodrigo Santoro e Mel Fronckowiak celebram o amor com a chegada do segundo filho; ‘Viva’
-
POLÍTICA1 ano agoLula perde apoio de lulistas e nordestinos, e desaprovação vai a 51%
-
POLÍCIA2 anos agoPolícia Civil orienta o que fazer nos casos de hackeamento e/ou de falsos perfis junto ao Facebook
-
AGRICULTURA1 ano agoParece café, mas não é: ‘cafake’ engana consumidores, diz Abic
-
MATO GROSSO2 anos agoPGE-MT lança Cartilha Eleitoral 2024 com orientações para agentes públicos sobre conduta nas eleições
-
POLÍTICA2 anos agoVárzea Grande inaugura 25 obras e investe R$ 115 milhões em comemoração aos seus 157 anos
