OPINIÃO
Arborização urbana x desmatamento e queimadas
Published
10 meses agoon
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Da Redação
Juacy da Silva
A crise climática, o aquecimento global, as ondas de calor estão batendo às nossas portas e a cada ano a temperatura média do planeta vem aumentando, transformando o regime de chuvas, derretendo as geleiras, elevando a temperatura dos mares e oceanos, provocando furacões, maremotos, estiagens e secas prolongadas em alguns lugares e, em outros, chuvas torrenciais, tempestades, ventania que assustam e destroem casas e outros imóveis, produzem prejuízos econômicos e financeiros, provocam muito sofrimento e mortes.
Os chamados rios voadores, que trazem umidade da floresta amazônica para as regiões Centro Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, em decorrência do desmatamento que ainda continua acelerado tanto na Amazônia quanto no Cerrado, as queimadas que estão destruídos todos os biomas, inclusive o outrora exuberante Pantanal, repito, esses rios voadores também estão secando, desaparecendo, razão maior para inúmeros impactos negativos no “Brasil maravilha”, o Centro Sul/Sudeste.
Os aquíferos, que são imensas reservas de água doce subterrânea estão secando e também irão impactar o equilíbrio dos biomas e ecossistemas no Brasil e mundo afora.
Os cientistas de vários países do mundo, principalmente aqueles, milhares, que fazem parte do Painel do Clima da ONU, o IPCC, tem alertado sobejamente que dentro de mais duas ou no máximo três décadas, ou seja, entre 2040, 2050 ou no máximo 2060, algumas regiões do planeta, em diversos continentes, vão apresentar temperaturas médias acima de 50º graus centígrados.
As regiões que mais sofrerão impactos, cujas populações terão que aprender a conviver e sobreviver em situações climáticas extremas são, em princípio, as seguintes: Norte da África e Oriente Médio; Austrália, Índia, parte dos Estados Unidos (Meio Oeste e Oeste), parte do México e algumas regiões do Brasil, principalmente o Nordeste, onde a seca será mais incruenta e a desertificação aumenta de forma significativa.
Todavia, a região onde os impactos serão maiores e mais devastadores será o Centro Oeste, tendo Cuiabá e a Baixada Cuiabana e partes no entorno do Distrito Federal, como as áreas em que o aumento de temperatura serão maiores, talvez quem viver por aqui dentro de três décadas terá que viver com mais dias ao longo do ano com temperaturas acima de 50º ou até 55º Graus centígrados.
Neste sentido, como o Papa Francisco, cujo legado relativo as preocupações com a ecologia integral, tanto insistiu durante seus 12 anos de pontificado, quem mais sofrerá com essas mudanças/crise climática, desastres naturais serão os pobres.
Enquanto a população que integra as classes média e alta, por terem mais renda e recursos poderão utilizar a tecnologia, como aparelhos de ar-condicionado, climatizadores, para enfrentarem as ondas de calor a população pobre, de baixa renda que as vezes nem sequer dispõe de salário ou renda para alimentar as famílias, vivendo em casebres ou em habitações sub-humanas não tem condições sequer para adquirirem um ventilador.
Diante deste cenário um tanto catastrófico, mas que tem alta probabilidade de ocorrer dentro de pouco tempo, só existe uma esperança representada por algumas mudanças de hábitos, de estilo de vida e de sistemas produtivos.
Precisamos aprender ou reaprender a respeitar mais a natureza, reduzir a ganância, a busca irracional por lucros imediatos a qualquer preço, inclusive a destruição das florestas, da biodiversidade, a destruição das nascentes, a poluição e degradação dos solos, dos córregos e rios, das matas ciliares, acabar com a especulação imobiliária urbana que destrói todas as formas de verde que outrora existiam nas cidades.
A cada ano, mesmo que a propaganda governamental, nos diversos níveis de governo federal, estaduais e municipais, embasada em fake news, diga que o desmatamento e as queimadas estão sendo reduzidas, o que os cientistas, estudiosos e ativistas das questões ambientais, a ciência e a tecnologia estão tem nos alertando que a realidade e a verdade dos fatos são muito diferentes.
Apesar de que em 2024 tenha havido uma redução de 32% na área desmatada no Brasil, mesmo assim, conforme dados do MAPABIOMAS em 2024, a área total desmatada em nosso país foi de aproximadamente 1.242.079 hectares. A área média desmatada por dia em 2024 foi de 3.403 hectares.
Considerando que, em média cada hectare de floresta tem entre 600 a 700 árvores, o total de árvores destruídas em apenas um ano no Brasil foi de aproximadamente 807 milhões.
Diante desses números tudo o que tem sido feito em termos de arborização urbana é extremamente insignificante, considerando que a destruição das florestas e as queimadas tem um grande e pernicioso impacto no meio urbano também, afetando principalmente a qualidade do ar e a saúde humana, além dos impactos no regime de chuvas e no sequestro de carbono e demais gases de efeito estufa acumulados na atmosfera.
Assim, a segunda “linha de ação”, para mitigar e reduzir minimamente os impactos dessa crise climática, que a cada dia se torna mais graves tanto na vida cotidiana quanto nos sistemas produtivos e outros setores econômicos, é o reflorestamento das áreas rurais destruídas e degradadas com espécies nativas que outrora existiam nessas mesmas regiões e que hoje já são áreas degradadas ou em processo de degradação.
O Brasil tem mais de 100 milhões de hectares de terras totalmente degradadas, áreas que outrora eram cobertas por florestas, nascentes, córregos e rios limpos e cheios de vida e hoje só existe natureza morta, fruto do desmatamento, das queimadas e pelo uso abusivo de agrotóxicos e outras fontes de poluição urbana.
De acordo com matéria veiculada pela Agência Brasil, produzida por Tânia Alves, repórter da Rádio Nacional, em 05 de Janeiro de 2024 “Até 135 milhões de hectares de vegetação podem estar degradados no Brasil”.
Assim, esta segunda “linha de ação”, além do reflorestamento das áreas rurais, precisamos investir de forma mais significativa na ARBORIZAÇÃO URBANA e em Florestas Urbanas e Peri urbanas, mas para tanto é preciso, é fundamental que as Prefeituras elaborem e as Câmaras Municipais APROVEM os Planos de Arborização Urbana – o chamado PDAU, que seria como um grande mapa ou quase um quebra cabeça, onde as iniciativas individuais, comunitárias ou coletivas que tem feito um grande esforço voluntário, para plantar árvores possam participar desta empreitada.
Todavia, se as prefeituras como no caso de Cuiabá, que há quase 20 anos quando da elaboração do Plano Diretor de Desenvolvimento Estratégico de Cuiabá, determinou que o Poder Executivo elaborasse e encaminhasse `a Câmara Municipal o PDAU e até hoje, apesar de a mesma prefeitura ter gasto quase um milhão de reais para elaborar o referido plano e o mesmo continua dormindo nas gavetas do Poder Executivo, fica difícil, no caso de Cuiabá reconquistar o “título” de “Cidade Verde” que tinha outrora.
Diante da inexistência do PDAU, seja em Cuiabá ou qualquer outra cidade, todo o esforço voluntário, muito meritório, diga-se de passagem, corre o risco de se perder. Se não existe o PDAU que define os aspectos técnicos do que plantar, onde plantar, que tipo de árvore pode ser plantada, qual o distanciamento e, enfim, tantas outras normas técnicas que devem estar contidas no citado plano para orientar a população que preza, gosta do verde, que planta árvores, repito, corremos o risco de ser necessário de cortar arvores plantadas com tanto esforço e dedicação por que não estão tecnicamente corretas, diante dos parâmetros que a arborização urbana precisa ser realizada.
Diante do cenário de agravamento da crise climática, do aumento das ondas de calor, é urgente que as Prefeituras, como de Cuiabá, Várzea Grande e tantas outras cidades de Mato Grosso e do Brasil inteiro, despertem para esta realidade e elaborem seus Planos de Arborização Urbana, da mesma forma que tantos outros planos ambientais como saneamento básico, principalmente esgotos; de coleta de lixo, introduzindo a coleta seletiva e reciclagem; planos municipais de recursos hídricos, incluindo de águas pluviais para evitar os constantes alagamentos e reduzir os impactos das chuvas torrenciais; planos municipais de limpeza urbana, de acessibilidade e mobilidade urbana e tantos outros mais.
Só assim, nossas cidades poderão ser consideradas modernas, sustentáveis, justas e econômica e socialmente inclusivas, enfim, cidades que ofereçam condições dignas de vida e não como atualmente acontece, em que nas cidades a grande maioria da população vive em “guetos”, ou seja, uma minoria privilegiada tem tudo e a grande maioria não tem nada.
Pergunto, é este o país que desejamos? É esta a sociedade que almejamos? É esta a democracia que tanto falamos em defender? Defender para quem?
Sem participação popular, sem transparência na definição e na implementação das políticas públicas não conseguiremos enfrentar as mudanças climáticas e os ainda mais graves desafios socioambientais que nos esperam e virão com certeza dentro de pouco tempo.
Não podemos atrelar nossos destinos `as iniciativas de apenas algumas “cabeças iluminadas”, que os donos do poder e as elites imaginam ter para oferecer, como presentes e não direitos `a uma população cada vez mais esquecida e sofrida!
Em meio a tudo isso, estamos ufanisticamente, alegremente nos preparando para mais uma COP (Conferência do Clima), como se fosse uma grande festa, a ser realizada no final deste ano em Belém, sem que essas questões e também a questão central da crise climática, que é a produção e uso de combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão), que são responsáveis por 75% da produção dos gases de efeito estufa que, por sua vez é a causa maior de todos esses desastres ecológicos não fazem parte das “negociações” oficiais e da agenda da COP30.
Combustíveis fósseis, desmatamento, queimadas, lixo e os sistemas de produção agropecuária são os grandes vilões deste desastre ambiental que estamos vivendo e mais, os países do G20, as maiores economias do mundo, onde o Brasil se inclui, são responsáveis por 80% das emissões desses gases que estão destruindo o planeta e todos os países,
Juacy da Silva é professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste. Email profjuacy@yahoo.com.br. Instagram: @profjuacy Whats app (65) 9 9272 0052.
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