OPINIÃO
Felca falou e o Brasil reagiu
Published
8 meses agoon
By
Da Redação
Christiany Fonseca
Quando o influenciador Felca publicou no dia 6 de agosto um vídeo denunciando a adultização infantil, ou seja, a exposição de crianças em situações e comportamentos próprios da vida adulta e a exploração de menores em plataformas digitais, a repercussão foi imediata. Em poucas horas, o conteúdo acumulava milhões de visualizações, virou tema por dois dias no Jornal Nacional e pressionou o Congresso a pautar projetos de lei que criminalizam a exploração sexual infantil e a circulação de conteúdos associados a ela.
Entre 11 e 12 de agosto de 2025, foram apresentados 32 novos projetos relacionados ao tema na Câmara dos Deputados. Vale ressaltar que desde 2015 outros 75 projetos com essa mesma temática circulavam no Congresso Nacional. Muitos já passaram por discussões em comissões, audiências públicas e até aprovações parciais, mas estavam paralisados, sem avanços significativos.
Isso realmente demonstra que a denúncia de Felca sensibilizou a sociedade e colocou representantes em ação. Inclusive, nesta quarta-feira, 13 de agosto de 2025, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou o PL 2.857/2019, que aumenta em um terço a pena para quem alicia menores nas redes sociais, evidenciando que a mobilização gerada pelo vídeo já está tendo impacto concreto no Legislativo.
Apesar de campanhas como o Maio Laranja, que buscam conscientizar sobre o combate ao abuso e à exploração sexual infantil, os dados mais recentes evidenciam que a exploração sexual infantil já era uma realidade alarmante. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024 registrou 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável, sendo que 61,3% das vítimas tinham até 13 anos.
Paralelamente, a SaferNet Brasil recebeu 71.867 novas denúncias de imagens de abuso e exploração sexual infantil online em 2023, um aumento de 77,13% em relação ao ano anterior. Esses números mostram que a violência sexual contra crianças e adolescentes é sistêmica, estrutural e intensificada pelo ambiente digital. Ainda assim, não havia uma reação eficaz da sociedade e do poder público até a repercussão do vídeo de Felca.
Faço aqui apenas uma observação. A denúncia de Felca teve um impacto incontestável, catalisando uma reação pública e política rara em temas tão sensíveis. Mas o fato de que essa mobilização só tenha ganhado tal proporção a partir da fala de um homem influente, nos convida a pensar sobre como nossa sociedade hierarquiza vozes. Especialistas, organizações e sobreviventes vêm denunciando a sexualização infantil há anos, com muito menos repercussão.
A pergunta que fica é o que essa simetria revela sobre nossos filtros de atenção, nossas estruturas de poder simbólico e a seletividade da convulsão coletiva? Essa reflexão que envolve dimensões históricas e sociológicas será aprofundada em outro momento. Mas ela também nos obriga a olhar para quem, além das pessoas, controla o fluxo da indignação: as plataformas digitais.
É nelas que se decide o que ganha alcance e o que é empurrado para o esquecimento, e é por isso que precisamos falar das Big Techs e da urgência de sua regulamentação. A violência sexual contra crianças e adolescentes é sistêmica, estrutural e intensificada pelo ambiente digital. Não podemos mais fechar os olhos para esses crimes virtuais sob o pretexto de liberdade de expressão. Há quem veja qualquer medida regulatória como censura ou ameaça à liberdade, mas até quando vamos permitir que esse argumento sirva de escudo para crimes que acontecem à vista de todos nas redes sociais?
A recente votação na CCJ, que aumentou a pena para aliciadores de menores, foi um passo importante, mas não é suficiente. Só punir quem cometeu o ato infracional não resolve o problema. É urgente avançar na discussão da regulamentação das Big Techs. União Europeia, Reino Unido e Austrália já aplicam legislações que responsabilizam as plataformas e impõem padrões obrigatórios de moderação de conteúdo, evidenciando que a regulação da proteção infantil no ambiente digital é uma realidade internacional e não apenas uma pauta em discussão. Precisamos encarar de frente esse tema sensível, questionar o modelo de negócio que prioriza lucro sobre proteção e estabelecer regras que coloquem a infância acima dos algoritmos.
As Big Techs afirmam ter políticas rígidas contra a exploração sexual infantil. Mas, na prática, essas plataformas operam sobre um modelo de negócio que prioriza engajamento e tempo de tela acima de qualquer outra métrica. Algoritmos treinados para maximizar cliques acabam recomendando e amplificando conteúdos prejudiciais ou ilegais. Denúncias feitas por usuários muitas vezes caem em filtros automáticos ineficientes ou são avaliadas por moderadores terceirizados, submetidos a sobrecarga de trabalho e metas de produtividade que inviabilizam análise criteriosa.
Esse cenário é agravado por um dado inquietante: a Deep Web, camada da internet não indexada por mecanismos de busca tradicionais, sempre foi associada a crimes ocultos, incluindo redes de pedofilia. Hoje, contudo, grande parte do material de exploração sexual infantil circula abertamente nas plataformas mais populares, sem necessidade de ferramentas sofisticadas para acesso. No vídeo de Felca, o influencer demonstra como uma conta no Instagram, aliada a buscas, interações e likes direcionados, faz com que os algoritmos identifiquem com rapidez interesses específicos e apresentem mais conteúdos sobre o tema. Ou seja, aquilo que antes parecia restrito à Deep Web está agora à vista de todos, expondo diretamente crianças e adolescentes.
Sociologicamente, a adultização infantil é efeito de uma lógica que transforma a criança em objeto de consumo simbólico. Pesquisas de Tiziana Brenner Weber evidenciam que a indústria do entretenimento, a publicidade e a moda criam estratégias que borram as fronteiras entre infância e idade adulta, promovendo comportamentos e representações que normalizam a sexualização precoce. Weber aponta que essa adultização não é espontânea, mas resultado de pressões culturais e econômicas que moldam expectativas de gênero e consumismo, criando meninas “twin”, que reproduzem padrões estéticos e comportamentais adultos desde cedo.
Por outro lado, a Sociologia da Infância, desenvolvida por Anete Abramowicz, reforça que crianças são sujeitos sociais ativos, cujas experiências são atravessadas por fatores estruturais como gênero, classe e raça. Abramowicz argumenta que a exposição midiática das crianças não decorre de escolhas individuais, mas de pressões sociais e econômicas, que instrumentalizam a infância para fins de lucro e entretenimento, reproduzindo estereótipos de gênero e reforçando desigualdades.
Assim, tanto Weber quanto Abramowicz mostram que a sexualização infantil é reflexo de uma lógica cultural, econômica e social que precisa ser compreendida de forma crítica para além do olhar moralizante ou individualizante.
É aqui que convém explicitar a distinção entre sintomas e causas. A responsabilização penal, a moderação de conteúdo e os filtros automatizados tratam sintomas, reduzem danos imediatos e são indispensáveis. As causas, porém, residem na engrenagem que sexualiza a infância: modelos de monetização que premiam o engajamento a qualquer custo; economias da atenção que capturam vulnerabilidades; padrões culturais e de gênero que mercantilizam corpos; publicidade e moda que empurram códigos adultos para meninas; ausência de educação midiática e falhas de proteção estatal. Sem enfrentar essas raízes, o ciclo se recompõe e cada pico de indignação será seguido por novas ocorrências. Combater o sintoma salva vidas. Atacar a causa impede que o problema se reproduza.
A discussão que se abre com a denúncia de Felca revela que a questão vai muito além da punição às plataformas, essa, por si só, ainda é incipiente. Trata-se de repensar o ecossistema digital em que o lucro vale mais que a proteção, e em que a omissão corporativa perpetua violências. É preciso encarar essa pauta sensível com coragem e reconhecer que a proteção da infância deve se sobrepor sempre aos interesses econômicos das plataformas e ao discurso de liberdade de expressão que, na prática, expõe nossas crianças e adolescentes.
Ainda que a omissão das plataformas seja um eixo central, não podemos ignorar um segundo debate. Até que ponto cabe às famílias conter um problema que é, antes de tudo, sistêmico? Atribuir exclusivamente aos pais a contenção desse fenômeno é uma falsa solução. Famílias importam, e muito, mas não bastam diante de um sistema econômico e tecnológico que lucra com a exposição infantil.
Responsabilidade compartilhada é a única via: o Estado legisla, fiscaliza e oferece suporte; as plataformas assumem dever de cuidado, ajustam algoritmos e prestam transparência auditável; as escolas incorporam educação midiática e proteção digital; as famílias acompanham e orientam; a sociedade civil fortalece redes de apoio e canais de denúncia. Individualizar o problema serve apenas para mascarar suas dimensões estruturais. Esse esforço conjunto é o que pode evitar que mobilizações como a gerada pelo vídeo de Felca sejam apenas faíscas momentâneas.
O vídeo de Felca não apenas expôs um problema antigo, ele rompeu o silêncio social que há anos pairava sobre o tema. Embora a sexualização infantil esteja na pauta de especialistas, organizações e vítimas há décadas, foi só agora que o debate ganhou escala nacional e chegou com força ao Parlamento.
Se essa luz vai se manter acesa ou se será apenas mais uma faísca esquecida, depende de mudança cultural e legislativa que coloque o interesse da infância acima dos algoritmos. E a esperança é que os parlamentares mantenham o compromisso com essa pauta, sem transformá-la num lacre momentâneo impulsionado pelo engajamento do vídeo.
O Brasil já desperdiçou pautas urgentes em disputas ideológicas, e não podemos permitir que essa siga o mesmo destino. Regular as Big Techs é só o começo; é preciso construir uma rede real de proteção que una educação digital, suporte às famílias, acolhimento psicológico e canais de denúncia que funcionem no instante da ameaça. O teste dessa mobilização não será medido por hashtags ou manchetes, mas pelo dia em que nenhuma criança precise entrar na memória do país apenas pelo crime que sofreu.
Christiany Fonseca é doutora em Sociologia, cientista política e professora efetiva do IFMT.
Governo bloqueia R$ 1,2 bilhão do Executivo e R$ 334 milhões de emendas
Governo bloqueia R$ 1,2 bilhão do PAC e R$ 334 milhões de emendas
Mais de 100 pessoas são atendidas em Mutirão da Cidadania com apoio da Prefeitura de Várzea Grande
Prefeita garante permanência dos profissionais até nova tratativa junto ao Ministério da Saúde
Justiça do Trabalho concede novo prazo de cinco dias para manifestação sobre propostas da Santa Casa
Prefeitura de Cuiabá reforça importância do calendário vacinal infantil e disponibiliza imunizantes na rede municipal
Várzea Grande reforça parque de máquinas com novos veículos
Mulheres ocupam 74% dos cargos na Prefeitura de Cuiabá e ampliam presença em funções de liderança
IPTU de Várzea Grande pode ser pago diretamente nas casas lotéricas
Prefeita apresenta nova secretária, Maria Fernanda, aos servidores da Educação
SAÚDE
Chikungunya: entenda doença que preocupa Mato Grosso do Sul
O governo federal reconheceu situação de emergência em saúde pública no município de Dourados (MS) em razão de doenças infecciosas...
Mato Grosso do Sul vai receber vacina em projeto contra Chikungunya
O Mato Grosso do Sul vai receber doses da vacina contra a chikungunya como parte de uma estratégia piloto elaborada pelo Ministério da...
Chikungunya: União reconhece situação de emergência em Dourados
Portaria do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional publicada nesta segunda-feira (30) no Diário Oficial da União reconhece situação...
POLÍCIA
PC mira suspeitos de homicídio de engenheiro e de tentativa de assassinato de médica em MT
A Polícia Civil deflagrou na manhã desta segunda-feira (30) a Operação Linha de Mando, para cumprimento de quatro mandados de...
Operação fiscaliza 786 veículos e leva 57 condutores a prisão por embriaguez ao volante
A Secretaria de Segurança Pública de Mato Grosso (Sesp-MT) aderiu, neste fim de semana, à Operação Nacional Lei Seca, promovida...
Criminosos invadem residência em Várzea Grande e fogem levando veículo zero quilômetro
Um veículo roubado durante invasão a uma residência foi recuperado poucas horas após o crime, neste domingo (29), com apoio...
POLÍTICA
STJ mantém ação na Justiça de MT contra ex-secretário por fraude de R$ 3,9 milhões na Saúde
Conteúdo/ODOC – A ministra Maria Marluce Caldas, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), negou habeas corpus do ex-secretário-adjunto de Saúde...
Mauro Mendes fecha ciclo à frente do governo com visita aos 142 municípios de Mato Grosso
Conteúdo/ODOC – Governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (União), afirmou em vídeo nas redes sociais, que concluiu no final de...
Jayme cita regras na federação e garante ter maioria no União Brasil para ser candidato
Conteúdo/ODOC – Senador Jayme Campos (União), em entrevista na Rádio Cultura, afirmou que a federação União Brasil e Progressistas (PP),...
CIDADES
Mais de 100 pessoas são atendidas em Mutirão da Cidadania com apoio da Prefeitura de Várzea Grande
Ofertando mais de 20 serviços gratuitos, o Mutirão da Cidadania, organizado pela Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT), sob coordenação...
Prefeita garante permanência dos profissionais até nova tratativa junto ao Ministério da Saúde
“Vocês são a ponta daquela mãe desesperada, que muitas vezes deixa de trabalhar para levar o filho à unidade de...
Justiça do Trabalho concede novo prazo de cinco dias para manifestação sobre propostas da Santa Casa
A Justiça do Trabalho de Mato Grosso concedeu novo prazo de cinco dias improrrogáveis para que a comissão de credores e...
ESPORTES
Rondonópolis conquista troféu de campeão geral em Jogos das Escolas Militares disputados em Sinop
A 5ª edição dos Jogos dos Estudantes Militares de Mato Grosso foi encerrada, ontem, em Sinop, com cerimônia de premiação...
Rondonópolis conquista troféu de campeão geral em Jogos das Escolas Militares disputados em Sinop
A 5ª edição dos Jogos dos Estudantes Militares de Mato Grosso foi encerrada, ontem, em Sinop, com cerimônia de premiação...
Abertas inscrições para a 11ª Corrida da Soja; premiação passa de R$ 100 mil
Foram abertas as inscrições para a 11ª Corrida da Soja, que será realizada no dia 31 de maio, com largada...
MATO GROSSO
ALMT dá posse a Otaviano Pivetta como governador nesta terça-feira (31)
Otaviano Pivetta tomará posse no Plenário das Deliberações Renê Barbour. Foto: Marcos Lopes A Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT)...
Semana na ALMT terá posse de novo governador e sessões ordinárias
Foto: Luciano Campbell/ALMT A agenda da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) para a próxima semana será marcada por reuniões...
Presidente da ALMT destaca importância do controle interno na administração pública
Foto: ANGELO VARELA / ALMT O presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT), deputado Max Russi (Pode), participou nesta...
Trending
-
ENTRETENIMENTO2 anos agoRodrigo Santoro e Mel Fronckowiak celebram o amor com a chegada do segundo filho; ‘Viva’
-
POLÍCIA2 anos agoPolícia Civil orienta o que fazer nos casos de hackeamento e/ou de falsos perfis junto ao Facebook
-
MATO GROSSO2 anos agoPGE-MT lança Cartilha Eleitoral 2024 com orientações para agentes públicos sobre conduta nas eleições
-
POLÍTICA2 anos agoVárzea Grande inaugura 25 obras e investe R$ 115 milhões em comemoração aos seus 157 anos
-
ESPORTES2 anos agoClube do interior é o único na série A
-
MATO GROSSO2 anos agoIncêndios no Pantanal aumentam quase 900% e região totaliza maior índice desde 2020, diz WWF-Brasil
-
MATO GROSSO2 anos agoDetran disponibiliza mais de 20 serviços de forma online; veja quais
-
POLÍTICA1 ano agoLula perde apoio de lulistas e nordestinos, e desaprovação vai a 51%
